segunda-feira, 28 de maio de 2012
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
José Altheman: o pescador “Zé do Boné”.
Leandro Altheman* Muita gente em Praia Grande ainda deve se lembrar da emblemática figura que todas as manhãs saia para pescar no “Casco do Navio”, retornado quase sempre, com sua fieira repleta de robalos, embetaras, por vezes algum baiacu, que por saber lhe tirar o veneno, não dispensava.
“Zé do Boné” era o apelido entre os amigos pescadores do Sr. José Altheman.
Natural de Amparo, na região serrana de São Paulo, José iniciou cedo a vida na roça, como a maioria das pessoas de sua geração. Nascido no ano de 1920, neto de uma família de suíços alemães que chegaram ao Brasil nos primórdio da imigração. Contudo, não chegou a conhecer seus ascendentes. Jovem, mudou-se para Campinas-SP para trabalhar nos cafezais da região.
Aos 18 foi viver finalmente em São Paulo, por ocasião do serviço militar. Ingressou como operário em diferentes fábricas, ficando mais tempo em uma das empresas do grupo Souza Cruz, que produzia as embalagens para cigarros. Foi pioneiro na luta dos trabalhadores daquele tempo e membro fundador do sindicato dos gráficos, e como tal, lutou por melhores condições sanitárias para os operários.
Começou a freqüentar o balneário ainda na década de 60, antes da emancipação política de Praia Grande. Onde passou a dedicar-se à pratica da pesca esportiva no casco do navio
A Pesca como Estilo de vida

Acordava antes do sol nascer, preparava suas iscas e partia em direção ao mar, não sem antes consultar a tabela de marés. Além da vara e do molinete, levava consigo outros apetrechos a maioria, de fabricação própria. Como por exemplo os “porta-iscas” – pedaços de cano furados com uma tampa presa a um elástico, aonde iam os “pitus” que ele mesmo criava em tanques.
A caixa de isopor com o restante das iscas ficava na praia, protegida às vezes por um guarda- sol, enquanto José entrava na água, atravessando a nado o primeiro e o segundo canal. Por horas a fio, permanecia de pé, lançando o anzol com a isca no cardume que seus olhos pareciam enxergar sob as ondas.
Foram raras as ocasiões em que voltou para casa sem peixe ou “comeu ovo” como dizem no linguajar dos pescadores.
José por sua experiência e destreza, ganhou o respeito dos demais, trazendo fieiras cheias de belos robalos, que mais tarde comeríamos fritos. Para proteger do sol uma pequena área calva em sua cabeça, nunca deixava de usar um boné, o que lhe valeu o apelido de “Zé do Boné”.a sem peixe ou “comeu ovo” como dizem no linguajar dos pescadores.
Em novembro de 1980, veio o seu maior feito como pescador. Retirou das águas, exatamente do “Casco do Navio”, (até onde eu saiba) o maior exemplar de robalo já pescado naquela área e sob aquelas condições: 17.900 gramas e 1 metro de dez centímetros de comprimento.

Zé do Boné e o robalo de quase 18 quilos foram retratados também em uma matéria da Revista Acampamento, especializada em caça e pesca.
O “corrupto”
Na década de 80 mesmo, começou a se popularizar entre os pescadores o uso do “corrupto” como isca. Meu avô não soube dizer exatamente quem trouxe a moda entre eles. Mas o fato é que o “corrupto” sempre esteve lá, naqueles insuspeitáveis “furinhos” respirando sob a areia. As bombas feitas de cano de PVC, como um êmbolo de sucção revelavam o aspecto inédito daquela criatura que parecia ter saído dos filmes de ficção. Ao invés de patas ou nadadeiras, anéis circulares, e uma casca quase translúcida que revela todo o interior do bicho, às vezes somados de milhares de minúsculas ovas avermelhadas.
Era divertido acompanhar meu avô na “prospecção” ao “corrupto”, quase sempre era acompanhado por dezenas de turistas interessados naquela estranha atividade.
No fim, “corrupto”, acabou por quase aposentar o “pitu”.
Vivência
Os dias, horas e minutos que passei ao lado de meu avô foram para mim inestimáveis. Hoje

vivendo na Amazônia percebo o valor que os índios dão para o contato direto entre avôs e netos. A transmissão do conhecimento vivo de uma geração para outra é um tipo de aprendizado que jamais escola alguma poderá substituir. É o tipo de saber que transcende as disciplinas dos bancos escolares e que se torna presente na alma, de modo indelével.
Ainda hoje me lembro da cor do nascer do sol da janela de meu avô e de sua disposição em sair para pescar. Do cheiro de maresia em suas roupas, de como mesclava tão bem seus modos severos com um senso de humor incrível. Guardando em um sorriso discreto um indisfarçado prazer em estar vivo. Sou grato à Deus por ter tido esta oportunidade de convívio com meu avô.
Partida
Os anos de pescaria lhe deram muita saúde e disposição física. Não me lembro dele doente ou queixando-se daquelas dores que são sempre comuns à terceira idade. Tinha uma saúde e uma disposição de ferro.
Talvez por isso mesmo, fomos todos pegos de surpresa quando no dia 12 de outubro de 2005, José Altheman ou “Zé do Boné” fez a sua passagem.
Era um dia comum e naquela manhã mesmo ele havia ido pescar, trazendo consigo alguns robalos. Limpou os peixes, como era acostumado, guardou-os no freezer, tomou um banho e deito-se para esperar o almoço. Acordou com uma forte dor no peito e depois de recobrar os sentidos, teve tempo apenas de se despedir da sua “Nêga”, Dona Hilda Favalli Altheman, que o acompanhava há mais de 50 anos.
Despedida
Trabalhando como reporte de rádio na distante Cruzeiro do Sul-AC extremo oeste do Brasil recebi a notícia entre uma reportagem e outra. Chorei muito, não pela inevitável morte ter chegado para meu avô, mas por não ter podido me despedir convenientemente.
Notei que horas antes de receber a notícia enquanto fazia uma reportagem que meu jeito bem-humorado de viver me lembrava muito de meu avô. Recordei dos ensinamentos dos índios que dizem que nossos ancestrais vivem em nós e em toda natureza à nossa volta.
Embarquei no primeiro vôo para São Paulo, ainda a tempo da última despedida. Conforme seu último desejo foi cremado e eu, seu neto mais velho, tive a honra de lançar suas cinzas no mar em que sempre esteve sua vida.
Suas cinzas receberam o abraço final da Rainha do Mar, a quem eu rogo que o tenha em bom lugar.
*Leandro Altheman é jornalista e vive em Cruzeiro do Sul-AC. É autor do blog Terranauás.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Sexta-feira de Chuva

Oi mãe,
Hoje, pro algum motivo muito especial me veio uma lembrança completa de momentos que tivemos juntos na minha infância. Uma lembrança, não apenas de coisas e fatos que aconteceram mas com um gostinho todo especial que só o coração pode reviver.
Era um sexta-feira chuvosa. E você havia nos buscado na Escola São Judas Tadeu. Eu e o Guigo sentados no banco de trás do carro. Haviam gotas de chuva na janela e o trânsito era lento, mas não estávamos com pressa. O limpador de pára-brisa ia pra lá e pra cá fazendo seu singelo ruído.
Olhava pela janela do carro, com meu pensamento sei lá onde....
Mas do que eu me lembrei mesmo hoje, não foram tantos estes detalhes, mas a sensação de ser protegido e amado por alguém tão especial como a minha mãe. O que você falava, era doce e havia amor em suas palavras... e mais que tudo esta sensação de ser amado... Tão bom, mãe... lembrar disso.
Não foi apenas uma sexta-feira, foram muitos os dias da semana, muitos os meses do ano, em que me senti amado por você, só não sabia o que era isso. Hoje eu sei e digo com toda franqueza, mãe: faz toda diferença em quem eu sou hoje.
Obrigado, Mãe
sábado, 8 de janeiro de 2011
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Breve Historia do Capitalismo Industrial Brasileiro, ou Capitalismo de Estado
Depois de ver e ouvir tanta abobrinha na Internet, me sinto quase na obrigação de fazer uma postagem, baseada mais na história do que na política, para que tenhamos, principalmente um esclarecimento sobre qual é o modelo do capitalismo industrial brasileiro. O assunto é atual, uma vez que a aquisição de uma parcela maior de ações da Petrobrás provocou um rebuliço nas bolsas de valores do mundo todo e colocou o Bovespa, em segundo lugar nas movimentações finaceiras do planeta.
Antes de tudo caberia a pergunta: este tipo de intervenção do estado, enfraquece ou fortalece o capitalismo nacional? Embora talvez alguns economistas tentem argumentar o contrário e dizer que quem se fortalece é na verdad o Estado e não a economia, o mais óbvio é que se a bolsa de valores de SP ultrapassa a de Chicago, é um claro sinal de que a economia, e portanto, o capitalsimo nacional, estaõ sendo favorecidos com a ação do estado. Portanto, vir falar de "comunismo", numa hora dessas me parece mais do que tudo uma tentativa tosca de uma campanha de desinformação e medo totalmente irreal.
Mas, a ação do atual governo federal não é uma atitude isolada, é na verdade um eco de um modelo capitalista que vem sendo implantado no Brasil desde Getúlio Vargas. Por esta razão, vou fazer aqui um brevíssimo histórico da formação do capitalismo industrial brasileiro, para que possamos melhor nos situar na historia.
Período Colonial
Portugal adota para o Brasil um modelo denominado "plantation" ou seja - monocultura, latifundiária e escravocrata. Neste modelo nao há espaço para produção manufatureira, precursora da atividade industrial.
Enquanto isso, nos EUA a atividade manufatureira se desenvolve livremente, mas as sobretaxas britânicas desestimulam a atividade.
A partir da mineração seculo XVIII, a atividade manufatureira se desenvolve em Minas Gerais. Produção de artigos de vestuário e calçado. Portugal edita uma medida que proibe a atividade, prevendo até pena de morte.Os EUA conseguem sua indepenedencia e passam a exercer a atividade a todo vapor. Começa a Revolução Industrial na Inglaterra e se espalha rapidamente para França e EUA. Portugal permanece como produtor de vinhos e azeite, e nao participa da revolução.
1808 - Vinda da Familia Real
Cessa a proibição a atividade industrial no Brasil, mas a legislação favorece somente a compra de produtos industrializados ingleses. O Brasil segue sendo um latifundio, monocultural escravocrata até o final do século XIX.
D. Pedro II
Foi quem primeiro lançou as bases do Brasil moderno, trazendo familias de imigrantes suíços e chineses em substituição à escravidão. Através de Visconde de Máua tem início as primeiras industrias no Brasil. A atividade só é possivel com apoio estatal, pois não há como competir com a insdutria britanica ou dos EUA
Getulio Vargas
A crise do capitalismo liberal de 1929 derruba os preços do café brasileiro, obrigando a uma nova saída. Getúlio Vargas inicia a industrialziação do Brasil em uma politica chamada "substituição de importações".
Um apoio intensivo do Estado é necessario para que o Brasil possa superar séculos de atraso na produção industrial. A criação da Compania Siderurgica Nacional (estatal) possibilita a industrização do Brasil.o modelo adotado é o seguinte: o stado presente nas industrias de base (siderurgica, hidrelétricas e mais tarde pertoleo) e iniciativa privada nas industrias de bens de consumo. No segundo governo GV (1950), é criada a Petrobrás. se consolida o modelo de capitalismo nacional. Não é o capitalismo apregoado pelos EUA que querem um acesso maior às economias da América Latina, e nem tampouco é socialismo soviético. É um capitalismo com participação do estado nas industrias de base. O modelo tem seus criticos ferrenhos os capitalistas librais, representados sobretudo por Carlos Lacerda. Sãos os mesmos grupos economicos que hoje detém a imprensa "nacional", quase toda formada pelo capital estrangeiro.
Juscelino Kubitcheck
Dá um novo impulso à industrialização com a industria automobilistica.A Petrobrás permite um grau de autonomia á economia brasileira que não é visto com bons olhos pelos EUA. Cresce a oposição ao modelo capitalista brasileiro. Tentativa de golpe contra JK.
João Goulart e o Golpe
João Goulart e Leonel Brizola nunca foram comunistas. Sua base de pensamento era a do capitalismo nacional, herança de GV. Mas os setores derrotados nas urnas, representados pela UDN, articulam um golpe civil-militar para acabar com a idéia de capitalsmo nacional. Os poucos órgãos de imprensa geridos por capital nacional são fechados (jornal Ultima Hora, TV Tupi- Assis Chateubriant ). O capital estrangeiro possibilita a criação dos grandes meios de imprensa brasileiros Grupo Abril(Veja) e Globo.
Milagre Brasileiro
A fim de justificar os regimes ditatoriais da America Latina, patrocinados pelo EUA através da CIA (há documentos historicos que comprovam isso), os EUA promovem grandes emprestimos financeiros ao Brasil, que possibilitam o boom da economia brasileira. A alegria tem fim com a crise do Petróleo no final da década de 70.
Social Democracia
Como forma de criar um contraponto entre o comunismo soviético e o liberalismo americano, a Europa cria um modelo que apesar de capitalista, não é liberal, mas social-democrata, ou seja, favorece as pautas de reivindicação das categorias trabalhistas: seguro -desemprego, a aposentadoria, abonos salariais, etc. Este modelo favorece a queda nos indices de criminalidade e criam o chamado "Estado de bem-estar Social."
Neoliberalismo
Margareth Tacher e Ronald Reagan implantam o modelo neoliberal, que prevê a extinção dos sindicatos e dos beneficios sociais, para aumentar a produtividade das empresas. É uma época de crescimento economico e a URSS não consegue acmpanhar. Embora o seu modelo estatal seja vitorioso na grande industria (aço, industria bélica, petróleo, industria naval) não consegue ser competitiva na industria de bens de consumo(textil, automoveis, eletrodomésticos, etc). O resultado é o fim do modelo socialista soviético.
No Brasil, este modelo neoliberal é adotado na Era Collor, provcando, entre outras cosias, a maior quebra de empresas brasileiras da historia ("quem não tem competência, nao se estabele", lembra-se).O modelo é continuado na Era FHC. Apesar do rotulo "social-democrata", a partir do governo FHC, o PSDB abandona este modelo e passa a defender o modelo neolibral, que preve entre outras coisas, a privatização da economia.
Hoje
Lula na verdade apenas retomou o modelo GV, um capitalismo industrial nacional. O nome mais correto para este modelo adotado seria "Capitalismo de Estado". Não tem nada a ver com comunismo, mas também não é um capitalismo liberal. Em termos historicos, foi o modelo que permitiu maiores avanços para a economia e a sociedade brasileira.
O modelo neoliberal é posto em cheque quando o próprio Obama se vê obrigado a usar dinheiro do Estado para salvar empresas falidas, pois sabe que haveria um impacto social muito grande com as demissões. A rápida recuperação do Brasil perante a crise é a prova cabal de que o modelo brasileiro é eficiente. Em outras palavras: uma economia capitalista, mas com participação do Estado nas industrias de base.



